O Autismo Infantil


O autismo infantil, classificado no subgrupo denominado “Transtornos Invasivos do Desenvolvimento” (TID), corresponde a um quadro de extrema complexidade que se manifesta na infância precoce, tipicamente antes dos três anos, caracterizado por um desenvolvimento anormal da interação social, da linguagem, comunicação, e no uso da imaginação (incluindo-se aqui os interesses restritos e a utilização de comportamentos repetitivos e de auto-estimulação).

A desordem atinge indivíduos de ambos os sexos e de todas as etnias, classes sociais e origens geográficas. Sua incidência é maior entre o sexo masculino (4 vezes mais comum em meninos do que em meninas), mas os sintomas tendem a ser mais severos em meninas. Recentes números de estatísticas do autismo entre a população dos Estados Unidos e da Europa apontam para a existência de uma epidemia atual do autismo, com os números de estatísticas nacionais nos EUA saltando de 1 em cada 2500 pessoas na década de 1990 para 1 caso de autismo em cada 150 pessoas em 2007 (fonte: Centers for Disease Control, EUA). A ASA – Autism Society of America – estima que existam atualmente 1,5 milhões de norte-americanos afetados pelo autismo. O mesmo quadro tem sido observado no Reino Unido, com a incidência subindo de 1:2500 em 1993 para 1:150 em 2007. Estes números tornam a desordem mais comum do que o câncer infantil, o diabetes e a AIDS. No Brasil, país com uma população de cerca de 190 milhões de pessoas em 2007, estima-se que haja cerca de 1 milhão de casos de autismo (fonte: Projeto Autismo do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, 2007). O aumento dos casos de autismo no Brasil tem sido relatado por instituições ligadas ao atendimento de famílias de crianças com autismo em todas as regiões brasileiras.

A comunidade científica ainda não chegou a um consenso em relação às causas do autismo. No entanto, há evidências de que o Transtorno afeta a estrutura e a funcionalidade dos neurônios no cérebro das crianças com autismo. Os neurônios são mais curtos e possuem menos ramificações do que os neurônios de pessoas neurotípicas.

Sem uma clara definição das possíveis etiologias do autismo, o diagnóstico é clínico, a partir das características comportamentais em relação ao desenvolvimento da linguagem, interação social e no uso da imaginação.

A expressão “autismo” foi utilizada pela primeira vez por Bleuler em 1911, para designar a perda do contato do sujeito com a realidade. Em 1943, Kanner usou a mesma expressão para descrever 11 crianças, que tinham em comum, comportamentos bastante originais, denominando-os “distúrbios autísticos do contato afetivo” – um quadro caracterizado por autismo extremo, obsessividade, estereotipias e ecolalia, considerando-o uma psicose. As primeiras alterações desta concepção surgem a partir de Ritvo, em 1976, defendendo a relação do autismo a um déficit cognitivo, considerando-o não uma psicose, e sim um distúrbio do desenvolvimento. Atualmente o autismo é considerado uma síndrome comportamental derivada de desenvolvimento neurológico atípico, programado para operar de forma diferente, caracterizando uma desordem relacional. Muitas das crianças e adultos do espectro têm dificuldade em se orientar e se conectar socialmente, visualizando uma inabilidade de se relacionar com o outro.

Sintomas e características do autismo

É importante salientar que os sintomas do autismo variam de uma criança para outra, e conforme o desenvolvimento do sujeito. As pessoas com autismo de funcionamento mais baixo são caracteristicamente mudas por completo ou em grande parte, isoladas da interação social e com realizações de poucas incursões sociais. No próximo nível, observa-se linguagem espontânea, as crianças podem aceitar a interação social passivamente, mas não a procuram. Entre as que possuem grau mais alto de funcionamento e são um pouco mais velhas, seu estilo de vida social é diferente, ao sentido que elas podem se interessar pela interação social, mas não a iniciam ou a mantêm de forma típica. O estilo social de tais indivíduos foi denominado “ativo, mas estranho”, no sentido que eles geralmente têm dificuldade de regular a interação social após ter iniciado.

Cerca de 50% das crianças com autismo não fazem uso da fala e aquelas que falam apresentam normalidades, que envolvem dificuldades na comunicação não verbal, como, falta ou uso precário de gestos, mímica e do apontar; problemas simbólicos, pragmáticos e pré-linguísticos na fala; falhas na compreensão da mesma; e ausência de expressão facial ou expressão facial incompreensível para os outros. Essas dificuldades na comunicação acontecem em graus variados, podendo-se encontrar tanto uma criança com linguagem verbal, porém, repetitiva e não comunicativa, quanto encontrar crianças com dificuldades na comunicação por qualquer outra via.

Já o desenvolvimento anormal da interação social é a base para a realização do diagnóstico em autismo e o sintoma mais fácil de causar falsas interpretações. Significa a dificuldade em relacionar-se com os outros, em compartilhar sentimentos, gostos e emoções; incapacidade na discriminação entre diferentes pessoas; resistência às mudanças ou insistência à monotonia; e falta de antecipação postural e de contato ocular.

E os desvios do uso da imaginação se caracterizam por rigidez e inflexibilidade do pensamento, linguagem e comportamento do sujeito. Tais desvios podem ser percebidos por uma forma de brincar desprovida de criatividade e pela exploração singular de objetos e brinquedos, como passar muitas horas seguidas explorando a textura de um brinquedo, ou, naqueles sujeitos de autofuncionamento, a fixação em determinados assuntos.

Deste modo, os transtornos do espectro do autismo, são distúrbios relacionais, cuja principal dificuldade é o sujeito se orientar socialmente de maneira típica. Isto significa que elas não prestam tanta atenção aos estímulos sociais como as outras crianças. Estímulos sociais como, por exemplo, um adulto chamando-as pelo nome ou olhando para os olhos delas. Estas são habilidades sociais básicas que crianças de desenvolvimento típico aprendem nos primeiros meses de vida. As crianças que têm um atraso na aprendizagem da habilidade de orientação social apresentam dificuldade no processamento de estímulos sociais, e apresentam, então, atraso no desenvolvimento de habilidades como a atenção compartilhada (prestar atenção à mesma atividade ou ao tópico que outra pessoa está prestando) e o compartilhar experiências emocionais com os outros. Estes são passos cruciais durante os primeiros anos do desenvolvimento da criança e formam a fundação para todo o aprendizado social e boa parte do aprendizado cognitivo. Sem a habilidade de atenção compartilhada, o indivíduo não é capaz de sustentar uma conversa ou até envolver-se em uma simples brincadeira de cócegas por muito tempo.

Devido à complexidade do transtorno e à variedade de graus dos sintomas, é muito difícil realizar o diagnóstico, e por isso deve ser feito somente por um profissional médico ou psicólogo especializado em desenvolvimento infantil que esteja consciente da história do indivíduo, assim como, do contexto familiar e social. As avaliações diagnósticas mais aceitas são baseadas no DSM IV-TR (2002) da Associação Americana de Psiquiatria. Além dos critérios para diagnóstico do DSM IV, existe também a escala ATA (Escala de Traços Autísticos) composta por 23 subescalas.